Vazamentos e ataques são cada vez mais frequentes. Especialistas da SPS Group explicam por que a pergunta não é mais 'se' sua empresa será atacada, mas o quanto ela está preparada para responder
Em menos de duas semanas, dois casos de vazamento de dados colocaram o tema cibersegurança novamente na pauta de executivos e gestores em todo o Brasil. Primeiro, o iFood confirmou que dados cadastrais de aproximadamente 1,2 milhão de usuários foram expostos em um incidente ocorrido em dezembro de 2025, e que só veio a público em junho de 2026. Dias antes, a Smart Fit havia reconhecido que uma catraca inteligente com o endereço de IP exposto na internet permitiu acesso a nomes, documentos, fotos e horários de entrada de clientes de uma de suas unidades. As situações evidenciam brechas nos sistemas de apoio, noa dispositivos conectados e nos pontos cegos da operação.
Para a SPS Group, empresa especializada em tecnologia e gestão empresarial com sede em São José dos Campos (SP), esses episódios são um sinal de alerta que vai muito além das empresas diretamente envolvidas.
Os casos de iFood e Smart Fit fazem parte de um padrão. Só em 2025 no Brasil, foram registrados cerca de 700 milhões de ataques cibernéticos em 12 meses, de acordo com relatório da plataforma de estudos sobre ataques virtuais NordVPN. O número revela que as organizações estão expostas independentemente do porte ou setor. E um dado agrava ainda mais o cenário: pesquisas de mercado indicam que 87% das violações começam com credenciais válidas ou comprometidas. Ou seja, quando um invasor entra com um login legítimo, boa parte dos controles tradicionais simplesmente não detecta a ameaça.
O caso do iFood ilustra esse ponto com precisão: a vulnerabilidade estava em um sistema interno de atendimento a autoridades, e não na plataforma principal de pedidos. No iFood, a falha era do tipo IDOR (Insecure Direct Object Reference), que permite acessar registros de outros usuários simplesmente alterando um parâmetro na requisição. Uma configuração incorreta, não uma invasão de alto nível. Já na Smart Fit, o problema era ainda mais básico: um endereço de IP de uma catraca inteligente estava acessível publicamente na internet, sem qualquer restrição de acesso.
Há alguns anos, ataques cibernéticos eram mais pontuais e técnicos. Hoje, eles combinam diferentes abordagens para explorar tanto falhas de sistemas quanto comportamentos humanos. Phishing continua sendo um dos vetores mais eficazes, e está cada vez mais sofisticado. Ataques de phishing por QR Code em PDFs cresceram 146% no primeiro trimestre de 2026: o usuário recebe um documento aparentemente legítimo, escaneia o código sem questionar e é levado a uma página falsa de login.
Uma vez que um invasor obtém credenciais válidas, ele passa a agir como um usuário autorizado, e pode permanecer dentro da organização por dias ou semanas sem ser detectado. Nesse período de permanência, criminosos mapeiam ativos críticos, identificam contas com privilégios elevados, localizam backups e preparam ações futuras. Com o apoio de ferramentas automatizadas e Inteligência Artificial, o intervalo entre a invasão inicial e a execução do ataque está cada vez menor.
A IA, aliás, tem duplo papel nesse cenário: é ao mesmo tempo uma aliada importante para identificar comportamentos suspeitos com mais rapidez e uma ferramenta nas mãos dos criminosos para criar deepfakes e campanhas de phishing extremamente personalizadas. Quando não há governança sobre o uso corporativo de IA, o chamado 'shadow AI', o risco aumenta ainda mais.
A SPS Group, que atua com soluções de tecnologia e cibersegurança para empresas de diferentes portes e setores, aponta que a base da proteção está em práticas consistentes, não necessariamente em tecnologias caras ou complexas. O caminho recomendado segue uma lógica estruturada:
Antes de contratar qualquer ferramenta, é essencial mapear quais dados são mais críticos, onde estão armazenados e quais são os pontos de vulnerabilidade. Os casos de iFood e Smart Fit mostram que brechas nem sempre estão no sistema principal — muitas vezes estão em plataformas de apoio, dispositivos IoT ou integrações com terceiros.
Senhas fortes ainda são necessárias, mas insuficientes. Como 87% das violações começam com credenciais comprometidas, a autenticação multifator se torna uma camada indispensável. Mais do que fortalecer senhas, as empresas precisam monitorar comportamentos suspeitos associados a identidades digitais e responder rapidamente quando algo foge do padrão.
O e-mail continua sendo a porta de entrada preferida dos criminosos. Soluções de segurança específicas para e-mail, com análise avançada de links, anexos e detecção de phishing por QR Code, reduzem significativamente a superfície de ataque antes que a ameaça chegue ao usuário.
Muitas empresas já investem em monitoramento, mas o problema surge quando há visibilidade sem capacidade real de resposta. Alertas excessivos sem contexto e resposta manual lenta criam uma falsa sensação de segurança. Ferramentas de EDR (Detecção e Resposta em Endpoints) permitem identificar movimentação lateral, processos anômalos e isolar dispositivos comprometidos antes que o ataque se expanda.
Um dos erros mais comuns é tratar cibersegurança como responsabilidade exclusiva da área de TI. As organizações mais maduras já entenderam que segurança é uma construção coletiva, que acontece no dia a dia, nas decisões simples, nos hábitos de cada colaborador. Quando a liderança assume o tema como prioridade estratégica, o resultado é uma operação muito mais resiliente.
O vazamento do iFood gerou notificação imediata da ANPD. A LGPD exige comunicação formal em casos de incidentes que possam gerar risco aos titulares — e o descumprimento implica multas. Mas além da conformidade, empresas que tratam dados com responsabilidade ganham confiança — e confiança é um diferencial competitivo real.
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